Desigualdade Econômica e a longa cauda das elites

Um assunto que vem recebendo muita atenção nos últimos anos, tanto no Brasil quanto no exterior, é a questão da Desigualdade Econômica. Ou seja, o fato que uma pequena parcela das pessoas detêm a maior parte da riqueza mundial.

Embora esse já fosse um tema relativamente frequente no Brasil, onde sempre apresentou um caráter mais endêmico, ele se tornou ainda mais predominante pela importância que passou a assumir nos debates internacionais a partir de 2008 com a ascensão Movimento Occupy e da discussão da divisão do mundo entre os 1% mais ricos e privilegiados e os 99% restantes.

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E o que a Economia pode ajudar no debate sobre as causas da desigualdade? Olha, sinceramente pouca coisa. Esse debate sempre teve um foco muito maior dentro da Sociologia do que na Economia, que historicamente sempre o tratou muito mais como um efeito colateral de um desequilíbrio momentâneo na relação entre capital e trabalho no processo produtivo. Desequilíbrio esse que seria contornável no longo prazo como resultado do desenvolvimento econômico dos países.

O que existia, portanto, até então era uma crença implícita que tanto a pobreza quanto a desigualdade estariam muito mais relacionados ao grau de desenvolvimento econômico de cada país e que esses problemas seriam resolvidos à medida que os países mais pobres fossem alcançando o mesmo nível dos países mais desenvolvidos.

Esse ponto de vista começou a mudar de maneira mais drástica com a Crise Econômica Financeira de 2008, que jogou boa parte da classe média tanto da Europa quantos dos Estados Unidos na linha da pobreza. Isso certamente soou um alarme no mundo acadêmico, levando autores como Robert Shiller, vencedor do prêmio Nobel em Economia em 2013, a declarar que a desigualdade crescente em todo o mundo era o problema mais importante a ser solucionado.

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Guerra de Simulacros

Aviso: eu procurei maneirar nos spoilers, mas se você não viu Star Wars – O Despertar da Força e não quiser nada sobre a trama, não leia.

Star Wars é um fenômeno cultural, disso não há dúvidas. Desde que o primeiro filme foi lançado em 1977, o universo fantástico dos cavaleiros Jedis apenas se expandiu tanto em sua mitologia quanto no número de mídias: quadrinhos, videogames, livros, jogos brinquedos, etc.

A influência gerada pela obra de George Lucas é tão grande que pode facilmente ser considerada como uma espécie de mito moderno, que influenciou positivamente milhões de jovens em todo mundo que se identificaram com a jornada de Luke Skywalker e chegando até mesmo ao patamar de religião para o fãs mais vorazes.

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Exatamente por toda essa importância mítico-histórica, eu fiquei bastante animado quando anunciaram um novo filme da saga e fui ficando cada vez mais eletrizado e com minha curiosidade cada vez mais aguçada à medida que ia chegando a data de estréia. Como estaria aquele universo 40 anos depois de terminada a saga original?!

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Cinco coisas que aprendi com Piratas

Há cerca de mais ou menos um ano e meio eu venho participando ativamente das discussões envolvendo a criação de um novo Partido Político: o Partido Pirata que, embora tenha surgido originalmente na Suécia em 2006, representa um movimento de caráter global presente em mais de 60 países cujas principais pautas são a liberdade de expressão, a horizontalidade, a transparência governamental e o livre compartilhamento de informação.

Por ser formado em uma graduação com forte ênfase em Ciência Política, sempre me interessei e busquei me atualizar quanto ao mundo político, mas resolvi participar mais ativamente nessa área depois de ver meu interesse crescer de maneira exponencial depois dos protestos de Junho de 2013.

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Munido da mesma desconfiança que o restante da minha geração em relação aos partidos políticos já consolidados, mas ainda interessado em participar do ambiente da política institucional, busquei conhecer alguns grupos e coletivos até conhecer os Piratas, que se diferenciaram dos demais grupos por suas práticas horizontais, diferente de outros partidos que normalmente são encabeçados por algum “cacique”, ao mesmo tempo que não apresentam os mesmos ranços ideológicos e vícios de pensamento de outros partidos de linha socialista, até por terem como principal referencial o ambiente da Internet e a organização das sociedade em rede.

Porém, independente da ideologia específica dos PIRATAS, esse período de participação acabou me levando a algumas conclusões importantes que me ajudaram a entender melhor o mundo político e, principalmente, porque ele apresenta determinados comportamentos e resultados.

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Uma ode ao Caos

“os romanos deixaram uma imagem dela para posteridade. Ela é mostrada como uma mulher grotesca com um visual pálido e mórbido, tinha olhos em chamas, vestimentas furadas e rasgadas, escondendo uma adaga no meio dos seios. Na verdade a maioria das mulheres são pálidas e mórbidas quando estão escondendo uma adaga em seus seios” – Principia Dischordia, página 19

A passagem acima descreve a imagem de Éris, a deusa do Caos e da Discórdia de acordo como ela era visualizada na cultura greco-romana. Sua lenda mais conhecida retrata como ela foi responsável por iniciar a Guerra de Tróia. Tudo começou quando um casamento estava sendo celebrado no Olimpo. Éris, que obviamente não tinha sido convidada, resolveu comparecer assim mesmo e lançou entre os convidados o “pomo da discórdia”, uma maçã dourada em que estava escrito “kallisti” ou “para a mais bela”, o que prontamente levou as Deusas Atena, Hera e Afrodite a disputarem o pomo entre elas.

Para resolver a disputa Zeus (que não era louco de se meter nessa) escolheu o mortal Páris, um pastor de ovelhas e príncipe de Tróia para escolher quem deveria receber o prêmio. Cada uma das Deusas tentou suborna-lo: Hera lhe prometeu poder político, Athenas lhe prometeu força na batalha e Afrodite lhe prometeu o amor da mais bela das mulheres mortais. Páris escolheu Afrodite e como recompensa recebeu o amor de Helena, que era esposa de Menelau de Esparta e cujo caso acabou levando ao início da Guerra de Tróia.

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Os antigos Gregos e Romanos não gostavam muito do conceito do Caos exatamente pela sua implícita imprevisíbilidade. Toda a cultura antiga era muito influenciada pela Filosofia Platônica, que por sua vez foi influenciada pela Tradição Pitagórica, privilegiando a busca pela Ordem e pela perfeição. Isso tanto na Ciência, como a Geometria e a Música, quanto na Arte, em que se estimulava a busca pelas formas anatômicas perfeitas.

O fundamento lógico por trás desses estudos era sempre o mesmo: o mundo era reduzido a formas geométricas ideais, como o quadrado, o círculo e o triângulo, que funcionavam como os blocos básicos sob as quais estariam fundamentados toda a ordem do Universo. Afinal, era mais fácil dividir a natureza em elementos que você pudesse compreender.

Essa busca pela Harmonia e a rejeição do Caos herdadas da cutura Greco-Romana acabariam se tornando traços permanentes de toda a Cultura Ocidental, inclusive em seu aspecto religioso, pois as três religiões irmãs – Cristianismo, Judaísmo e Islamismo – continuariam propagando a mesma narrativa: a Ordem e Harmonia estabelecidas por Deus foram quebradas pelo desvio gerado através do pecado do Homem.

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A sociedade de custo marginal e o “fim” do capitalismo

O fim do capitalismo é uma idéia bastante recorrente. Basta pensar que o capitalismo teve seu fim profetizado desde que esse sistema foi caracterizado como tal no trabalho de Karl Marx. Originalmente, Marx previa que o Capitalismo cairia como um resultado direto do acirramento da luta de classes, pois as contradições desenvolvidas em seu sistema levariam fatalmente à sua destruição. Algo que, mesmo depois de sucessivas crises econômicas, ainda não se concretizou.

Não que a falha dessas previsões prejudiquem o mérito teórico ou analítico do trabalho de Marx. Pelo contrário, até nisso Marx se mostrou como um economista padrão: ótimo em suas análises, mas péssimo em suas previsões.

No entanto, mais de 150 anos depois, ainda surgem candidatos interessados em apontar quais seriam as causas que levariam à derrocada final do capitalismo. E não é difícil entender por quê, afinal é um tema bastante atraente no imaginário popular e que atrai muitos leitores. Um desses novos candidatos é Jeremy Riftkin, que lançou em 2014 o livro “Sociedade de Custo Marginal Zero”, em que afirma que no futuro todos os produtos serão de graça, exatamente como ocorre com vários softwares e jogos na Internet hoje em dia.

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Não vou mentir, a idéia de utilizar a tecnologia como um fator de superação do nosso atual modelo econômico é muito interessante, principalmente em uma época de rápida expansão tecnológica como a nossa, algo que já foi constatado por outros autores best sellers, como o jornalista Paul Mason.

O Físico Michio Kaku uma vez afirmou que “os verdadeiros revolucionários são os cientistas e pesquisados da Física Básica” e o avanço técnico apresentado pela criação da imprensa, por exemplo, talvez tenha sido um fator mais preponderante na superação do antigo sistema feudal pelo capitalismo do que as perturbações sociais que ocorreram posteriormente

A tese de Riftkin em si, no entanto, é bastante problemática economicamente falando, principalmente pelo modo como se apropria de maneira equivocada de determinados conceitos econômicos. O conceito de custo marginal, por exemplo, se refere ao custo adicional de se produzir mais uma mercadoria (N+1) em uma linha de produção, sendo normalmente utilizado como referência em modelos de otimização matemática para definir qual o ponto de produção ótimo para uma empresa.

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Sobre as origens medievais do Mestrado e Doutorado

Há não muito tempo conclui meu Mestrado em Economia. Uma experiência intensa, que foi ao mesmo tempo intelectualmente estimulante, me levando a abordar diversos temas sob um ponto de vista mais rigoroso e muitas vezes diverso do meu, mas também com uma forte carga dramática (e traumática).

Digo isso não apenas pelas matérias pesadas que fui obrigado a cursar e que me cobraram uma grande carga de conteúdo em pouco tempo ou pela cobrança de produzir uma dissertação ou monografia com todo o rigor científico exigido da área, mas principalmente pela exigência de expor esse trabalho para ser escrutinado por uma banca de especialistas da área.

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O que poucas pessoas sabem, no entanto, é que por trás dessa estrutura amplamente praticada em todo o mundo. que é a da banca de mestrado e doutorado existe uma história muito mais antiga, datada da época Medieval, que é a jornada do Aprendiz para virar um Mestre. E é sobre isso que esse artigo se trata.

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O que o Rock e o Funk ostentação têm em comum?

Rebeldia, contra-cultura, atitude libertadora contra a sociedade. As pessoas que normalmente associam essas ideias com o Rock ficariam surpresas o quanto elas também descrevem uma outra vertente cultural muito mais recente: o Funk Ostentação.

“Mas como assim véi?! Como é que você pode comparar aquela porcaria do Funk Ostentação e aquelas músicas horríveis do MC Guimé com a beleza e maravilha do Rock’n Roll?!?!?”. Bom, embora pessoalmente eu também não goste de Funk (e tenho até uma explicação pra isso que vou deixar pro final do post), os dois estilos, enquanto fenômenos sociais, tem muito mais semelhanças do que você pode inicialmente imaginar.

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Sexo Drogas e Rock’n Roll

Vamos começar com o Rock. É difícil prever exatamente quando esse estilo musical surgiu, mas podemos situar a sua eclosão enquanto fenômeno de massa à partir do sucesso dos Beatles, que era uma banda inglesa, nos Estados Unidos. Os próprios Beatles antes de explodir já haviam bebido de influências americanas como Elvis Presley, Muddy Waters e Chuck Berry, mas foi apenas com os Beatles e outras bandas da década de 60 que o Rock se tornou o fenômeno e a influência mundial que é até hoje.

Essa parte da história (assim como boa parte do acervo musical da época) a maioria já conhece. O que boa parte ignora é como grande parte desse fenômeno social foi consequência direta de um fenômeno demográfico que se iniciou logo após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento da Geração “Baby Boomer”.

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