Progressistas vs Conservadores

alternância-de-poder-conservadorismo-progressismo

Há algum tempo, fiz um texto falando sobre as diferenças entre direita e esquerda. Para isso, eu procurei fazer uma uma pequena retrospectiva sobre esses dois conceitos, como surgiram e como eles foram se alterando e se adaptando ao longo da História.

Esse tipo de retrospectiva é importante pois mostra que, longe de serem elementos com uma definição única e imutável, direta e esquerda são, na verdade, conceitos que foram alterando seu significado de acordo com os contextos de cada época e local. Isso se deve a duas razões: primeiro por esses dois conceitos estarem relacionados muito mais à uma dimensão ético-moral do que algo com um significado exato. Basta pensar na clássica definição de Deleuze que o de Esquerda é aquele que pensa no outro antes de si mesmo, colocando uma forte ênfase moral e quase missionária sobre quem se posiciona como sendo de esquerda.

Em segundo lugar, porque pelo próprio caráter relativista do conceito, não existe uma “esquerda” propriamente dita, mas apenas elementos que estariam mais ou menos à sua esquerda. O PT, por exemplo, se considera mais de esquerda do que o PSDB, enquanto o PSOL certamente se considera mais de esquerda do que o PT. Já o PSTU e PCO certamente se consideram mais de esquerda do que o PT e o PSOL e assim por diante.

Por esse motivo, embora os conceitos de esquerda e direita sejam muito interessantes para a construção da identidade de um indivíduo ou instituição, e para quem procura se localizar ideologicamente em um determinado ambiente político ou em um equilíbrio de grupos de interesse, eles acabam não sendo muito úteis para aquelas pessoas interessadas em um diagnóstico claro sobre os méritos das ideias que estão em discussão.

Por esse motivo, muitas vezes prefiro evitar esquerda e direita para descrever um determinado cenário político em prol de uma outra terminologia:Progressistas vs Conservadores.

Qual a diferença?

Longe de ser um mero detalhe, essa preferência não apenas se refere aos significados mais claros que esses termos carregam; essa divisão explica de maneira muito melhor o ambiente político que passou a transparecer no Brasil após os protestos de junho de 2013, mas principalmente com a ascensão do Governo Temer ao poder que tem não apenas uma retórica, mas também tem em grande parte de sua base de apoio grupos de interesse com características claramente conservadoras.

E qual a principal diferença entre os dois grupos? Como poderíamos caracterizá-los? Bom, enquanto a divisão entre a esquerda e direita me parece estar relacionada muito mais a um posicionamento moral ou a uma postura pessoal em relação aos problemas sociais, a principal diferença entre Progressistas e Conservadores estaria relacionada muito mais a uma percepção particular de como essas pessoas enxergam o mundo.

Resumidamente, a ideia é que, enquanto Progressistas enxergam os problemas sociais sob um caráter mais estrutural, relacionando os mesmos a uma falha nas regras do sistema e no funcionamento da sociedade, Conservadores costumam analisar esses mesmos problemas sob algum aspecto moral, relacionando eles a fatores como a decadência de valores éticos ou a perda de valores familiares.

Podemos citar como exemplos os recentes casos de corrupção notificados durante a Operação Lava-Jato. Para conservadores, esses casos estariam relacionados muito mais a uma crise moral e ética da classe política e eles não ocorreriam se tivéssemos pessoas corretas e “de bem” ocupando esses cargos. Da mesma forma, outros problemas como a violência cometida entre menores de idade estariam relacionados com a perda dos valores familiares e de valores fundamentais, o que leva ao conhecido discurso que divide o Brasil entre “bandidos” e as pessoas “de bem”.

Já sob uma visão progressista, os recentes casos de corrupção no Governo e na Petrobrás estariam relacionados não a um problema moral dos agentes que estão no poder, mas a falhas endêmicas no nosso sistema político-eleitoral, que estaria selecionando as pessoas erradas para os cargos de representação. Falhas e pessoas, aliás, que não são problemas exclusivos de hoje, mas claramente mostram vícios de comportamento que vêm se arrastando há décadas no Brasil de maneira sistemática.

 

A Esquerda Conservadora e a Direita Progressista

Embora os discursos progressista e de esquerda frequentemente se misturem no cotidiano, eles não são a mesma coisa. Tanto que não é difícil pensar em exemplos de conservadores de esquerda ou progressistas de direita, bastando um pouco mais de atenção.

Os conservadores de esquerda, por exemplo, são aquelas pessoas que se identificam moralmente com os dogmas clássicos da Esquerda Tradicional e que acreditam que grande parte dos problemas do mundo não são resolvidos porque nem todos chegaram na mesma conclusão ou diagnóstico que o dele, geralmente uma solução simples e de caráter extremista derivada de alguma ideia mais ampla defendida por algum intelectual do século XIX

Proselitistas e moralistas, eles não titubeiam em listar as mazelas do mundo moderno, os problemas do capitalismo ou da democracia burguesa, mas sem apontar soluções claras paras esses mesmos problemas. Tudo parece depender apenas da vontade política e da reivindicação de antigas bandeiras, como se os problemas do mundo pudessem ser resolvidos apenas no grito.

Já os progressistas de direita podem ser relacionados com aquelas pessoas que defendem os antigos valores tradicionais da Direita como a Meritocracia e o modelo tradicional de família, mas que já possuem conhecimento técnicos suficiente pra perceber que nem todos os problemas estão relacionado à uma decadência moral. Esses defendem reformas localizadas e cirúrgicas no sistema político-econômico, mas de maneira que não venham a comprometer sua integridade, apenas aumentar sua eficiência.

Tecnocratas, essas pessoas buscam acima de tudo melhorar critérios de eficiência, sempre considerando que o esforço individual deva ser recompensado. Pouco criativas, elas parecem sofrer do que o Filósofo Marxista Žižek denomina de alienação no mundo contemporâneo, que é quando você não consegue conceber que possam existir outras formas de organização da sociedade para além daquelas que já existem e já se encontram plenamente documentadas.

 

Direita e Esquerda estão ultrapassados?

Embora eu tenha buscado elencar uma maneira diferente de dividir os atores políticos, eu não estou recomendando que as pessoas deixem de usar conceitos como direita ou esquerda, muito pelo contrário. Primeiro, porque esses termos estão entranhados demais no caráter das discussões políticas cotidianas para serem deixados de lado. Segundo, porque a dimensão ético-moral continua sendo extremamente relevante no debate político. Você não pode simplesmente deixá-la de lado, pois isso acaba fazendo com que o debate político assuma um aspecto meramente técnico e burocrático, o que é perigoso.

Em uma recente entrevista a líder dos Piratas da Islândia Birgitta Jónsdóttir, por exemplo, descreveu o Partido Pirata como um Partido Tecnocrata e Revolucionário, por estar disposto a derrubar os velhos conceitos do sistema representativo e a pensar em um novo modelo de Democracia mais direta e participativa. Até aí nenhuma surpresa, pois a ligação dos Piratas com a área da Tecnologia certamente leva seus membros a analisar os problemas da sociedade sob um caráter mais técnico e consequentemente estrutural, o que poderia ser relacionado com a Tecnocracia.

O peso e o perigo da palavra Tecnocrata, no entanto esboçam riscos como o modelo de Estado presente no filme (e livro) “Cloud Atlas” e dos quadrinhos “V de Vingança”, no qual termos um futuro distópico em que o Governo é feito por um conjunto de Tecnocratas guiados meramente por critérios técnicos de eficiência e uma gestão centralizada em detrimento da interação humana.

Portanto, embora essas considerações hoje tenham um caráter mais especulativo e próximo da ficção científica, ainda mais considerando a grande lacuna tecnológica que o Brasil ainda tem a superar, não devemos deixar de lado o caráter ético-moral trazido pelos termos direita-esquerda no debate político, pois isso faria com ele perdesse parte de seu significado e sua relevância para o cotidiano e ao homem comum.

Advertisements
Leave a comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: