Expectativas de uma Economia sem expectativas

No Romance “A Metamorfose” de Franz Kafka, o jovem Gregor Samsa um belo dia acorda em sua cama e descobre que se transformou em uma barata gigante. Essa é uma das histórias mais perturbadoras que já li, pois se baseia muito na exploração das angústias da perspectiva do personagem que, restrito à sua nova forma, não consegue sequer se comunicar com os outros.

Na história, uma das maiores frustrações do jovem Gregor era o temor de não poder mais trabalhar para sustentar sua família, pois ele havia abandonado todos os seus sonhos e começou a trabalhar como caixeiro viajante para poder pagar a dívida dos seus pais, além de proporcionar uma vida tranquila para sua irmã, a quem ele amava muito.

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Após sua metamorfose, a ausência da renda de seu trabalho como Caixeiro Viajante imediatamente fez muita falta, mas com o passar dos dias Gregor, ainda transformado em barata e restrito ao que conseguia perceber do seu quarto, notou que sua família descobriu novas fontes de renda: o pai que era aposentado conseguiu um bico como vigia noturno, a irmã começou a trabalhar como tutora e a família passou a alugar um quarto da casa como numa pousada, onde três pessoas passaram a dormir.

Dentro da narrativa, esse detalhe serve pra alimentar ainda mais a angústia do jovem Gregor ao mostrar que ele não era tão fundamental quanto pensava, mas também acaba servindo como uma ótima metáfora para ilustrar como os indivíduos se comportam e se adaptam em momentos de adversidade econômica.

A mesma coisa que se passou nessa história também ocorre em larga escala e de maneira simultânea com milhões de indivíduos como parte de um processo orgânico: as pessoas ajustam seus hábitos de consumo para uma nova realidade e buscam fontes alternativas para complementar sua renda.

Contornos de um Romance Barato

Da mesma forma, isso é o que vem acontecendo na Economia no começo desse ano de 2016. Depois de esperar quase todo o ano de 2015 quais seriam os desdobramentos do cenário político e as medidas que o Governo tomaria diante da piora do cenário econômico, a sensação generalizada é de decepção. É como se estivéssemos todos presos em uma espécie de Romance barato, onde estamos condenados a ver os mesmos personagens repetirem os mesmos erros em uma trama que não traz novidades ou avanços.

Verdade seja dita, boa parte dos problemas que atualmente afligem o país não se devem exclusivamente a condições internas. O desaquecimento da demanda global, assim como a queda abrupta do preço Petróleo no Mercado Internacional vem trazendo um forte impacto tanto sobre investimento em novas fontes de energia, quanto em obras de engenharia na área petrolífera, o que representa muita coisa. Quando falamos da média de anos anteriores, por exemplo, de todo o investimento contabilizado no Brasil, cerca de um quarto disso (24,2%) vinha da Petrobrás.

Ainda assim, para cada uma dessas condições externas desfavoráveis é possível apontar outros dez erros cometidos pelo Governo que conseguiram agravar ainda mais o problema, como a política de preços represados da Petrobrás, o subsídio geral dado ao setor automobilístico ou o crédito barato concedido de maneira indiscriminada por meio do BNDES.

Ainda que todas essas medidas tenham ajudado a gerar um crescimento (forte, porém declinante) no curto prazo entre 2008 e 2014, no longo prazo elas apenas ajudaram a comprometer ainda mais a situação orçamentária do Governo Federal, levando à atual paralisia que enfrentamos hoje. 

Em meio a esse cenário negativo com taxa de juros, inflação, desemprego crescentes e um crescimento econômico negativo, o grande salvador da lavoura foram as exportações geradas pela indústria agrícola, pois a demanda global por alimentos não foi tão afetada pela crise internacional e a variação da taxa de câmbio ajudou muito no lucro dos exportadores.

Por outro lado, depender da exportação de produtos primários não é nem um pouco tranquilizador, pois apenas me remete à ideia de que o Brasil regressou ao começo do século XX, quando era basicamente um exportador de café e constantemente se encontrava refém da variação de preços desse produto no mercado internacional.

Alguns Economistas chegam a defender a produção de produtos primários como uma “vantagem comparativa” do Brasil, graças à grande extensão de terras disponíveis para cultivo, mas isso nem de longe deveria limitar os escopos de nossa capacidades produtivas em outras áreas de maior valor agregado, como em tecnologia. Pelo contrário, deveríamos aproveitar a atual taxa de câmbio desvalorizada para produzir inovação não apenas no mercado interno, mas para todo o mercado internacional (ganhar em dólar cambada!).

O resultado final de toda essa bagunça é que a maior parte das pessoas agora está reformulando suas estratégias de longo prazo e dando seus movimentos no grande jogo de xadrez da vida. Essa antecipação de movimentos e lucros vindouros dentro da Economia, por sua vez, possui um termo um tanto quanto garboso: Expectativas.

 

Expectativas Racionais (pero no mucho)

É muito engraçado quando vejo Economistas falando sobre expectativas. Isso porque quando alguém estuda o comportamento e flutuações do Mercado normalmente o faz com base em variáveis que podem ser mensuradas objetivamente como PIB, Inflação ou Taxa de Juros. Já expectativas, por serem um componente basicamente psicológico e abstrato das relações humanas, não é algo que pode ser utilizado facilmente em uma análise empírica.

Então quando você vê alguns Economistas e, principalmente, Políticos falando que as “as Expectativas estão desajustadas” ou “essa é uma crise de confiança” quando perguntados sobre as causas da Crise Econômica, geralmente você pode traduzir isso como “Eu não faço a menor idéia”.

Por outro lado, mesmo que tenham uma natureza abstrata, expectativas são algo efetivamente importante na Economia. É possível até mesmo dizer que a principal diferença da Economia em relação a outras Ciências Naturais – Biologia, Química, Física e Matemática – é exatamente a capacidade que os agentes da mundo econômico, ou seja o objeto de estudos da Economia, tem de antecipar eventos futuros.

Quero dizer, uma estrela não vai deixar de brilhar porque saiu uma notícia sobre o mercado financeiro chinês, um átomo não vai mudar sua rotação porque fez uma conta, assim como uma onça não vai antecipar seu comportamento em mais de três meses porque acha que vai ser demitido.

Essa antecipação de eventos futuros, sintetizada no conceito de expectativas, acabam afetando principalmente a decisão sobre novos investimentos e, consequentemente, os processos de criação de novos espaços produtivos, além de delimitar o processo de inovação em uma Economia. São as expectativas de lucro futuro que determinam pra onde o fluxo de capital previamente acumulado irá de direcionar.

Não há muito segredo nisso. Se você tem uma quantia de dinheiro previamente acumulada (também chamado de “capital”), você não vai investir se não houver uma previsão e garantias mínimas de um retorno superior ao montante inicial investido. Por isso é tão importante que haja um componente de previsibilidade na Economia, principalmente na Política Econômica conduzida pelo governo. Componente esse, por sua vez, que é parte fundamental de um dos conceitos mais importantes da Economia Contemporânea: a chamada Crítica de Lucas.

 

A tal crítica de Lucas

A Crítica de Lucas não é um conceito tão simples de entender porque na verdade ele engloba uma intuição relacionada ao desenvolvimento de modelos empíricos, mas ele é fundamental para entendermos até que ponto é possível prever e, principalmente, moldar o comportamento humano.

Normalmente, quando um Governo (seja Federal, Estadual ou Municipal) vai desenvolver uma política pública qualquer, ele faz uma análise anterior pra conseguir determinar o preço, a quantidade de recursos que serão gastos ou qual serão os comportamentos futuros das pessoas.

Ou seja, ele precisa determinar uma regra do jogo a ser seguida com base no histórico anterior apresentado pelos indivíduos. Isso vale para qualquer coisa, seja a quantidade de alunos em uma escola, quantidade de vacinas que deverão estar disponíveis ou a quantidade de pessoas que circulam em ônibus diariamente

Sintetizando toda a conceituação anterior sobre expectativas em uma notação estatística, imagine que Y seja equivalente ao PIB. Podemos então expressar Y como uma Expectativa condicional (Média) que depende da variável de atividade econômica X tal que:

Y = E(Y|X) + ε

Ou seja, PIB deixa ser uma variável com valor estático e passa a ser descrito como uma estimativa futura explicada pelo fator X, mais uma variável de erro ε com valor médio igual a zero. Para calcular esse valor é possível utilizar diversos métodos, como, por exemplo, uma regressão linear tal que:

Y = E(Y|X) + ε = βX + ε

Onde o β é um coeficiente de regressão linear. Pra ajudar pense naquelas aulas de Geometria Analítica do Colégio, onde tinha aquela equação da reta “y = ax + b”. Nesse caso o “a” é equivalente ao β, que pode ser calculado com base no argumento abaixo

β = argmin E [(y – βx)²]

O que significa que o valor esperado entre o Y e o βx deve ser o menor possível, quanto mais perto de zero melhor. Essa diferença é elevada ao quadrado para garantir que ela seja ainda menor. Por isso, esse método se chama MQO (Mínimos Quadrados Ordinários).

Generalizando agora essa questão de maneira mais ampla para qualquer método, poderíamos sintetizar o problema da previsão de valores futuros Yt+1, como a previsão do PIB do ano que vem da seguinte forma:

Yt+1 = F(Yt, Xt, θ, ε)

Onde o valor de Yt+1 (ou seja, do PIB no período t+1) está sendo calculado como uma função F dos valores anteriores de Y, dos valores anteriores de X, de informações de caráter desconhecido θ e da variável de erro ε.

O que a crítica de Lucas afirma é que tentar prever valores com bases apenas em valores anteriores não é eficiente. Isso é verdade principalmente quando falamos em Políticas Públicas, pois ela leva em conta apenas o comportamento passado dos agentes econômicos, sem conseguir prever como os indivíduos irão se comportar ou como o comportamento dos agentes irão se ajustar à mudanças na Política a ser implementada.

Utilizando o exemplo anterior, por exemplo, se o Governo determinar que a política agora seguirá um padrão β, os indivíduos irão ajustar seu comportamento em relação a esse novo β, fazendo com que o resultado final da Política seja diferente do comportamento originalmente previsto e levando o Governo a fazer um eterno jogo de gato e rato.

 

Jogo de Gato e Rato

O caso anterior da imposição de um determinado β em uma política pública pode ser ainda mais perigoso dependendo do método utilizado, pois no caso de uma regressão linear, por exemplo, pois a política implementada apenas teria a eficiência máxima originalmente no caso do comportamento do indivíduo médio, sem levar em conta a diversidade de cada caso particular.

No recente caso da Reforma Educacional que estava sendo desenvolvida pelo Governo do Estado de Sâo Paulo, por exemplo, estava ocorrendo uma transferência de alunos entre escolas com base em um estudo que mostrava que Escolas com apenas um turno (apenas o Fundamental ou o Médio, por exemplo) apresentavam um desempenho 15% superior ao restante. Só que isso refletia um comportamento médio, não sendo necessariamente válido para cada uma das escolas individualmente.

Ironicamente, o resultado final desse processo foi muito semelhante ao que propõe a Crítica de Lucas: os indivíduos não se comportaram de acordo com a Política implementada originalmente propunha e alteraram drasticamente o seu comportamento dando origem a um protesto em massa.

“Mas então não há uma forma de se implantar uma política sem atritos?” vocês poderiam estar se perguntando.

Na verdade há, mas apenas nos casos em que o interesse do Governo seja coincidente com o interesse de todo o restante da população, sendo que para isso ele teria que ser publicizado previamente. Esse foi o caso do Plano Real, por exemplo, cujo maior trunfo, como afirma o próprio FHC em sua Biografia, não foi o de impor um remédio eficiente contra o elemento inercial que compunha a inflação, mas o de propor uma política de estabilização de preços que fosse compreendida, aceita e praticada por todos. Esse é o componente psicológico difícil e abstrato que o conceito de expectativas implica.

Na maior parte das áreas em um campo determinado basicamente pelo auto-interesse individual como a Economia, no entanto, quando uma determinada política econômica é determinada pelo Governo, os agentes econômicos adaptam seu comportamento buscando maximizar seus ganhos. Como uma forma de remediar isso, os modelos macroeconômicos pós-crítica de Lucas passaram a enfatizar uma lógica microeconômica, como uma função matemática que projete a maximização do lucro por exemplo.

Obviamente nenhum desses modelos econômicos consegue reproduzir exatamente o comportamento dos indivíduos, apenas permitindo chegar a um resultado final mais prático e eficiente. É como afirma o Estatístico George E. P. Box: “Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”.

Referências

Lucas Jr, Robert E. – Econometric Policy Evaluation: A Critique http://people.sabanciuniv.edu/atilgan/FE500_Fall2013/2Nov2013_CevdetAkcay/LucasCritique_1976.pdf

 

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