O Passe Livre é possível?

Já se tornou parte do Calendário Oficial de São Paulo. Todos os anos, logo após a Prefeitura reajustar a tarifa de ônibus, o Movimento Passe Livre convoca manifestações trazendo milhares de pessoas para protestarem nas ruas, pintando a cidade com faixas e gritos de ordem em protestos que, inevitavelmente, descambam em conflitos que ajudam temperar o asfalto da cidade com o suave odor de gás lacrimogênio.

A maior parte das pessoas só passou a perceber isso a partir de 2013, quando os casos de violência policial contra manifestantes e jornalistas marcaram o início das chamadas Jornadas de Junho, mas na verdade o Movimento Passe Livre faz esse tipo de manifestação na cidade há mais de dez anos.

capa-1

 

Nesse ponto eu reconheço a coerência do MPL, uma organização que, embora tenha começado em Porto Alegre em de 2000 e se expandido em proporção nacional à partir dos debates do Fórum Social Mundial, sempre se manteve focada em seu objetivo original de reivindicar pelo Passe Livre. E isso mesmo depois que milhares de pessoas tivessem reivindicado que ele expandisse sua pauta original após a explosão dos protestos de junho de 2013. Além disso, a lógica de organizar grupos locais para se mobilizar por pautas municipais faz muito sentido.

Essa estratégia de protestar pelo mesma tema em várias cidades, por outro lado, acaba fortalecendo uma lógica baseada mais na beleza ou justiça da pauta do Passe Livre do que nos contextos locais de conseguir atende-la. Meu amigo Daniel Duque, por exemplo, recentemente publicou um artigo explicando como o aumento da tarifa de ônibus do Rio de Janeiro poderia ser contestado com base em dados da Secretária de Trânsito, como o recente aumento do número de passageiros, a redução do número de cobradores e a baixa instalação de ar-condicionados, cuja meta não foi alcançada. Só que essa mesma lógica não se aplica a São Paulo.

(more…)

Advertisements

Expectativas de uma Economia sem expectativas

No Romance “A Metamorfose” de Franz Kafka, o jovem Gregor Samsa um belo dia acorda em sua cama e descobre que se transformou em uma barata gigante. Essa é uma das histórias mais perturbadoras que já li, pois se baseia muito na exploração das angústias da perspectiva do personagem que, restrito à sua nova forma, não consegue sequer se comunicar com os outros.

Na história, uma das maiores frustrações do jovem Gregor era o temor de não poder mais trabalhar para sustentar sua família, pois ele havia abandonado todos os seus sonhos e começou a trabalhar como caixeiro viajante para poder pagar a dívida dos seus pais, além de proporcionar uma vida tranquila para sua irmã, a quem ele amava muito.

kafka-kuper

Após sua metamorfose, a ausência da renda de seu trabalho como Caixeiro Viajante imediatamente fez muita falta, mas com o passar dos dias Gregor, ainda transformado em barata e restrito ao que conseguia perceber do seu quarto, notou que sua família descobriu novas fontes de renda: o pai que era aposentado conseguiu um bico como vigia noturno, a irmã começou a trabalhar como tutora e a família passou a alugar um quarto da casa como numa pousada, onde três pessoas passaram a dormir.

Dentro da narrativa, esse detalhe serve pra alimentar ainda mais a angústia do jovem Gregor ao mostrar que ele não era tão fundamental quanto pensava, mas também acaba servindo como uma ótima metáfora para ilustrar como os indivíduos se comportam e se adaptam em momentos de adversidade econômica.

A mesma coisa que se passou nessa história também ocorre em larga escala e de maneira simultânea com milhões de indivíduos como parte de um processo orgânico: as pessoas ajustam seus hábitos de consumo para uma nova realidade e buscam fontes alternativas para complementar sua renda.

(more…)

Empréstimos do BNDES e o efeito “Meia-Entrada”

Esse é um post que venho adiando há muito tempo, mas que resolvi publicar depois de ver a notícia que o Governo “assumiu” uma dívida de cerca de 214 Bilhões de Reais do Programa PSI do BNDES. Isso é muita coisa, pois pra vocês terem uma ideia o custo anual do Bolsa Família é de cerca de 30 Bilhões de Reais por ano.

Primeiro vou tentar traduzir essa matéria que está bem confusa. O PSI foi um programa criado pelo BNDES com um caráter anti-cíclico, ou seja, baseado naquele conceito keynesiano do Governo despejar dinheiro em momentos de crise para estimular a Economia. O foco do Programa era financiar a compra mais barata de máquinas e equipamentos pelas Empresas como uma forma de estimular o investimento.

01-05-2013-09-42-54-cinema-iguatemi-meia-entrada-daniel-queiroz-30abril2013-x6b0229

 

Só que esse Programa teve algumas particularidades: Primeiro, 75% desses empréstimos foram concedidos na modalidade “Automática”, ou seja, por Bancos Parceiros, sem qualquer tipo de análise prévia sobre o impacto ou a viabilidade desses empréstimos por parte do BNDES. Isso por si só já é algo bastante complicado.

Segundo, a taxa de juros desse Programa é muito menor do que o normal: cerca de 3% contra os 6% base normalmente cobrados em empréstimos do BNDES. O problema é que os empréstimos do BNDES já são subsidiados e nesse caso o governo teve que pagar uma diferença ainda maior entre os juros. Basicamente, ele teve que emitir títulos pelo Tesouro Nacional a 14% para pagar empréstimos a 3% pelo BNDES. E quem paga essa diferença? Nossos impostos.

(more…)