Guerra de Simulacros

Aviso: eu procurei maneirar nos spoilers, mas se você não viu Star Wars – O Despertar da Força e não quiser nada sobre a trama, não leia.

Star Wars é um fenômeno cultural, disso não há dúvidas. Desde que o primeiro filme foi lançado em 1977, o universo fantástico dos cavaleiros Jedis apenas se expandiu tanto em sua mitologia quanto no número de mídias: quadrinhos, videogames, livros, jogos brinquedos, etc.

A influência gerada pela obra de George Lucas é tão grande que pode facilmente ser considerada como uma espécie de mito moderno, que influenciou positivamente milhões de jovens em todo mundo que se identificaram com a jornada de Luke Skywalker e chegando até mesmo ao patamar de religião para o fãs mais vorazes.

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Exatamente por toda essa importância mítico-histórica, eu fiquei bastante animado quando anunciaram um novo filme da saga e fui ficando cada vez mais eletrizado e com minha curiosidade cada vez mais aguçada à medida que ia chegando a data de estréia. Como estaria aquele universo 40 anos depois de terminada a saga original?!

Antes de continuar, é importante destacar que recebi spoilers de “amigos” sobre a maior reviravolta do filme, o que pode ter afetado minha opinião final, pois depois de recebida aquela informação eu já havia entendido a trama inteira antes mesmo de sentar na cadeira do cinema.

Em resumo não gostei do filme. Ele começou bem, mas especialmente na sua última parte eu já estava torcendo pra que ele acabasse logo. A raiva e frustração que senti com isso apenas aumentaram quando o filme acabou e o cara do meu lado começou a aplaudir freneticamente. Inveja? Talvez.

 

O Cinema como Mídia de adaptação

A principal coisa que me incomodou no filme foi o fato dele funcionar como uma emulação do primeiro filme de 1977, quarto episódio da Franquia. A sequência é inconfundível: um jovem preso em um planeta desértico encontra um robô com uma mensagem secreta direcionada a um grupo de rebeldes. Ele então consegue então fugir do planeta graças à parceria com um cara desequilibrado e encontra uma espécie de mentor que revela que as lendas são reais e ensina a ela sobre uma misteriosa força que opera no mundo.

Durante sua jornada ela encontra um vilão mascarado que ameaça dominar a galáxia com uma estação espacial que destrói planetas inteiro. Esse vilão acaba matando seu mentor, mas esse jovem, no entanto, consegue derrotar o vilão mascarado e destruir a arma quando coloca em prática aquilo que aprendeu. Qualquer coincidência é mera semelhança.

Eu sei que a história original de 1977 se baseia muito na estrutura clássica da “Jornada do Herói”, conceito desenvolvido por Joseph Campbell em seu livro “O Herói de mil faces” de que todas os mitos heroicos apresentam as mesmas fases e elementos de transição, mas nem por isso eu consigo aceitar que a história final tinha que ser exatamente a mesma, pois até mesmo o mono-mito desenvolvido por Campbell permite que hajam variações.

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Tampouco acredito se tratar de uma “homenagem” ou de prestar a “devida reverência” ao filme de 1977, como afirmam alguns. Não, não, o cálculo envolvido aqui é muito claro: passar pelo menor risco possível ao oferecer aos espectadores exatamente aquilo que eles esperam, de modo a não atuar fora da zona de conforto dos principais.

Não me entendam mal, tecnicamente o filme é lindo. Uma delícia gráfica muito bem planejada e executada por um diretor extremamente competente e um elenco muito bem selecionado. Mas no que se refere à narrativa, ele oferece exatamente os mesmos elementos do filme original, se aproximando muito mais de um “reboot” do que uma sequência. A diferença é que para alguns isso positivo, mas para mim não

Não que discorde com a decisão de um ponto vista financeiro, afinal você não vai arriscar a “mina de ouro” em royalties e lucros potenciais desagradando os fãs mais xiitas. Não, gerenciamente essa é a solução que faz mais sentido

O problema é que esse medo de ousar não é algo presente apenas nesse filme e se tornou uma espécie de modus operandi do Cinema nos dias de hoje. Hollywood deixou há muito tempo de ser um meio voltado para a criação de novas idéias histórias para se tornar um mero meio de adaptação de outras mídias e de reciclagem de idéias antigas.

Pra confirmar isso basta pensar quais foram os principais filmes de 2015: Star Wars e Mad Max (sequências/reboots) de um lado, Jogos Vorazes e Vingadores 2 (adaptações) de outro.

É triste constatar isso, mas a crise criativa pela qual passa Hollywood, e que é frequentemente apontada por autores como Alan Moore, se refere muito menos à uma crise moral entre os escritores e mais a adoção de um modelo de negócios que busca não incomodar seu potenciais clientes. E o Cinema, como meio da sétima arte, deveria atuar também para incomodar as pessoas, mesmo em um filme de entretenimento como Star Wars.

 

 

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