Uma ode ao Caos

“os romanos deixaram uma imagem dela para posteridade. Ela é mostrada como uma mulher grotesca com um visual pálido e mórbido, tinha olhos em chamas, vestimentas furadas e rasgadas, escondendo uma adaga no meio dos seios. Na verdade a maioria das mulheres são pálidas e mórbidas quando estão escondendo uma adaga em seus seios” – Principia Dischordia, página 19

A passagem acima descreve a imagem de Éris, a deusa do Caos e da Discórdia de acordo como ela era visualizada na cultura greco-romana. Sua lenda mais conhecida retrata como ela foi responsável por iniciar a Guerra de Tróia. Tudo começou quando um casamento estava sendo celebrado no Olimpo. Éris, que obviamente não tinha sido convidada, resolveu comparecer assim mesmo e lançou entre os convidados o “pomo da discórdia”, uma maçã dourada em que estava escrito “kallisti” ou “para a mais bela”, o que prontamente levou as Deusas Atena, Hera e Afrodite a disputarem o pomo entre elas.

Para resolver a disputa Zeus (que não era louco de se meter nessa) escolheu o mortal Páris, um pastor de ovelhas e príncipe de Tróia para escolher quem deveria receber o prêmio. Cada uma das Deusas tentou suborna-lo: Hera lhe prometeu poder político, Athenas lhe prometeu força na batalha e Afrodite lhe prometeu o amor da mais bela das mulheres mortais. Páris escolheu Afrodite e como recompensa recebeu o amor de Helena, que era esposa de Menelau de Esparta e cujo caso acabou levando ao início da Guerra de Tróia.

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Os antigos Gregos e Romanos não gostavam muito do conceito do Caos exatamente pela sua implícita imprevisíbilidade. Toda a cultura antiga era muito influenciada pela Filosofia Platônica, que por sua vez foi influenciada pela Tradição Pitagórica, privilegiando a busca pela Ordem e pela perfeição. Isso tanto na Ciência, como a Geometria e a Música, quanto na Arte, em que se estimulava a busca pelas formas anatômicas perfeitas.

O fundamento lógico por trás desses estudos era sempre o mesmo: o mundo era reduzido a formas geométricas ideais, como o quadrado, o círculo e o triângulo, que funcionavam como os blocos básicos sob as quais estariam fundamentados toda a ordem do Universo. Afinal, era mais fácil dividir a natureza em elementos que você pudesse compreender.

Essa busca pela Harmonia e a rejeição do Caos herdadas da cutura Greco-Romana acabariam se tornando traços permanentes de toda a Cultura Ocidental, inclusive em seu aspecto religioso, pois as três religiões irmãs – Cristianismo, Judaísmo e Islamismo – continuariam propagando a mesma narrativa: a Ordem e Harmonia estabelecidas por Deus foram quebradas pelo desvio gerado através do pecado do Homem.

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