Sobre as origens medievais do Mestrado e Doutorado

Há não muito tempo conclui meu Mestrado em Economia. Uma experiência intensa, que foi ao mesmo tempo intelectualmente estimulante, me levando a abordar diversos temas sob um ponto de vista mais rigoroso e muitas vezes diverso do meu, mas também com uma forte carga dramática (e traumática).

Digo isso não apenas pelas matérias pesadas que fui obrigado a cursar e que me cobraram uma grande carga de conteúdo em pouco tempo ou pela cobrança de produzir uma dissertação ou monografia com todo o rigor científico exigido da área, mas principalmente pela exigência de expor esse trabalho para ser escrutinado por uma banca de especialistas da área.

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O que poucas pessoas sabem, no entanto, é que por trás dessa estrutura amplamente praticada em todo o mundo. que é a da banca de mestrado e doutorado existe uma história muito mais antiga, datada da época Medieval, que é a jornada do Aprendiz para virar um Mestre. E é sobre isso que esse artigo se trata.

O Aprendiz de Feiticeiro Sapateiro

Na era medieval se você quisesse exercer uma determinada profissão como sapateiro, tecelão ou qualquer outro tipo de manufatura era necessário se juntar a uma Guilda. Uma Guilda era o equivalente a um Sindicato, uma instituição que atuava de modo a defender os interesses daquela classe, só que muito mais restrita do que um Sindicato, pois sua entrada só era permitida para aqueles candidatos que fossem indicados por outra pessoa que já fizesse parte daquela Guilda.

Essa restrição de entrada em uma Guilda acabou consequentemente levando à criação da estrutura hierárquica do Mestre e do Aprendiz. O Mestre é aquele que já atuava plenamente no setor, como um sapateiro, por exemplo. Esse mestre então poderia acolher um jovem sob sua tutela como aprendiz, o qual ficaria trabalhando como bucha de canhão trabalhando com ele durante vários anos de modo a aprender todos os pequenos detalhes e segredos envolvidos naquela arte.

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Quando o Mestre finalmente cansava de explorar o pobre coitado sentia que o aprendiz estava apto para exercer a profissão, ele o indicava para ter seu trabalho examinado em uma banca composta pelos mestres daquela Guilda, exatamente como na apresentação final do trabalho de um mestrado. Para essa situação o aprendiz então desenvolvia sua “Obra Prima”, ou seja, sua primeira obra.

Essa Obra seria então minuciosamente examinado pelos membros daquela banca. O trabalho deveria ter uma qualidade excepcional, pois deveria ser capaz de resistir ao exame de seus pares de modo a mostrar que ele merecia receber o título de Mestre Artesão e que, consequentemente, estaria apto a atuar naquela atividade em nome da Guilda.

Confie em mim, eu sou um doutor

E quanto ao doutorado? Bom, enquanto que a estrutura do mestrado veio das Guildas Medievais, o Doutorado veio da estrutura da Igreja Católica, mas especificamente da Igreja Primitiva, onde o título de Doutor (Licentia Docendi) era uma referência aos apóstolos e outras autoridades cristãs que interpretavam e ensinavam a Bíblia para os fieis e membros da Igreja.

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A estrutura das primeiras Universidades surgiu como uma extensão da Igreja, onde o conhecimento era redigido e acumulado pelos monges copistas. Inicialmente só havia três áreas de conhecimento: Direito, Teologia e Medicina, que é de onde vem o nosso ainda persistente costume de chamarmos Médicos e Advogados de Doutores.

Posteriormente, com a expansão dos estudos das Universidades para além dessas três áreas originais surgiu a figura do “Philosophy Doctor” ou Ph. D., ou seja, o Doutor em Filosofia, que apesar do nome era voltado para aquele que se especializava em qualquer área de humanidades.

Esse título originalmente era concedido como uma espécie de distinção para aqueles profissionais que trabalhassem e se destacassem por vários anos em uma mesma área. Apenas no século XIX ele passou a ser concedido diante de um trabalho que concedesse uma contribuição a um campo específico de estudo.

Voltando aos dias de hoje

Como é possível perceber, a proposta “ritualística” envolvida em uma banca de mestrado é a mesma desde a Idade Média. A principal diferença no entanto é o tempo, pois enquanto o Aprendiz medieval passava praticamente metade de uma vida para virar um mestre, o Mestrado Acadêmico e o Profissional de hoje em dia tem duração total de pouco mais de dois anos. E isso é algo relativamente recente, pois até pouco mais de uma década ele durava quatro anos como o doutorado, mas foi encurtado para se tornar mais próximo do padrão internacional.

O resultado final desse prazo mais curto disponível para desenvolver um trabalho acadêmico mais rigoroso é que entramos em uma espécie de “Mind Game”. Um jogo mental no qual precisamos desenvolver e apresentar esse trabalho de maneira dinâmica de modo a pensar em todas as críticas que podem ser feitas e levantadas contra ele.

Esse jogo de se prevenir, se antecipar ou até mesmo admitir a validade das críticas (e elas certamente virão, aos montes) envolve provavelmente cerca de 90% do esforço envolvido na apresentação de qualquer trabalho acadêmico mais rigoroso e certamente ajuda a “criar caráter”, pois vacina você contra uma série de problemas envolvidos quando precisa expor seus argumentos em qualquer ambiente.

Esse é o principal objetivo de um mestrado ou doutorado. Não é o de torna-lo em algum tipo de especialista lotando o seu cérebro de conhecimento sobre um determinado tema, mas o de ensinar uma pessoa a como produzir e expor novos conhecimentos, ainda que isso consequentemente acabe levando você a se envolver em uma ampla consulta sobre tudo o que foi produzido anteriormente sobre o mesmo tema.

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