O que o Rock e o Funk ostentação têm em comum?

Rebeldia, contra-cultura, atitude libertadora contra a sociedade. As pessoas que normalmente associam essas ideias com o Rock ficariam surpresas o quanto elas também descrevem uma outra vertente cultural muito mais recente: o Funk Ostentação.

“Mas como assim véi?! Como é que você pode comparar aquela porcaria do Funk Ostentação e aquelas músicas horríveis do MC Guimé com a beleza e maravilha do Rock’n Roll?!?!?”. Bom, embora pessoalmente eu também não goste de Funk (e tenho até uma explicação pra isso que vou deixar pro final do post), os dois estilos, enquanto fenômenos sociais, tem muito mais semelhanças do que você pode inicialmente imaginar.

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Sexo Drogas e Rock’n Roll

Vamos começar com o Rock. É difícil prever exatamente quando esse estilo musical surgiu, mas podemos situar a sua eclosão enquanto fenômeno de massa à partir do sucesso dos Beatles, que era uma banda inglesa, nos Estados Unidos. Os próprios Beatles antes de explodir já haviam bebido de influências americanas como Elvis Presley, Muddy Waters e Chuck Berry, mas foi apenas com os Beatles e outras bandas da década de 60 que o Rock se tornou o fenômeno e a influência mundial que é até hoje.

Essa parte da história (assim como boa parte do acervo musical da época) a maioria já conhece. O que boa parte ignora é como grande parte desse fenômeno social foi consequência direta de um fenômeno demográfico que se iniciou logo após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento da Geração “Baby Boomer”.

A Segunda Guerra Mundial foi certamente um evento traumático e que levou à morte de milhões de pessoas em todo o mundo, mas parece que também foi de certo modo afrodisíaco, pois a geração que sobreviveu à guerra passou a apresentar uma grande explosão na sua taxa de natalidade.

Podemos especular se isso se trata de alguma espécie de resposta biológica em que sentimos uma maior necessidade de nos reproduzirmos (vulgo, fazer sexo) em face à um cataclisma, mas o ponto é que isso se traduziu em um grande número de bebês surgindo logo após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945. Cerca de 20 anos depois lá pelos idos de 1965, esse número se traduziu em um grande exército de jovens ávidos por novidades.

Além disso, precisamos entender o conflito inter-geracional que envolveu essas duas gerações, pois enquanto a geração que viveu durante a Guerra (além da grande recessão) foi exposta à uma realidade muito dura e incerta conseguiu rapidamente se apegar às esperanças da ascensão econômica do período do pós-guerra, os seus filhos que eram jovens na década de 60 não estavam satisfeitos apenas com a segurança material, mas procuravam também por outras formas de satisfação subjetiva, cultural e até mesmo “espiritual”.

Esse foi o momento que não apenas foi se construindo o mote “Sexo, Drogas e Rock’n Roll” que revolucionaria o comportamento de toda a civilização ocidental, mas também o surgimento de uma indústria cultural que se mostrou disposta a suprir essa nova demanda, oferecendo uma série de produtos que estivessem alinhados com esse novo segmento demográfico que se mostrava faminto e interessado a consumir tudo que fosse novo.

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Ostentação enquanto Rebeldia

 Voltemos agora aos dias atuais, em que o Rock já se encontra em decadência enquanto fenômeno mundial (sim, é verdade, não adianta chorar), ao mesmo tempo em que houve uma abertura para a ascensão de diversos ritmos e estilos locais. O principal exemplo disso atualmente no Brasil é o Sertanejo Universitário, que consegue mobilizar dezenas de shows com milhares e milhares de fãs em todo o país, mas inclui também outros estilos específicos das periferias, como o Funk Ostentação.

E o que é o Funk Ostentação? Bom, esteticamente é apenas uma cópia tardia do estilo adotado pelos clipes de rap americano, no qual homens aparecem cercados de mulheres e ostentando carros, joias e outros bens que a maioria certamente não tem acesso.

A maioria das pessoas não hesitaria em apontar o estilo duvidoso desses clipes como um reflexo da sociedade do consumo, um sintoma de uma sociedade que prega cada vez mais a futilidade como estilo de vida. No entanto, o que essas pessoas falham em perceber é que a ostentação também apresenta ares de rebeldia, de forma semelhante ao Rock ou ao Rap.

Primeiro, porque da mesma forma que o Rock pode ser explicado como consequência de um fenômeno demográfico, o Funk Ostentação pode ser explicado como um fenômeno econômico, resultado mais especificamente da grande inclusão econômica que ocorreu no Brasil nas últimas duas décadas com as classes C e D dando acesso a diversos produtos que, até então, ela não tinha acesso.

Segundo, porque há também um conflito inter-geracional nesse processo, pois a ostentação nunca foi algo bem visto nas periferias. Pelo contrário, como já me confirmaram pessoas que moravam nessas áreas há 20 ou 30 anos, você era até mesmo estimulado a ocultar o sucesso que você eventualmente pudesse obter, com o risco de ficar “mal falado” pela comunidade.

Então embora a atitude desses novos jovens de se destacar com produtos da moda, marcas de tênis, roupas e carros que até então eles não tinham acesso tenha realmente relação com a sociedade de consumo (como, aliás, qualquer coisa em uma sociedade capitalista), elas também apresentam uma quebra de comportamento e rebeldia, algo esperado e apreciado por jovens de qualquer geração desde o início dos tempos.

O Poder da Multidão

Em “O Signo dos Quatro”, uma das muitas obras de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes afirma que “não é possível prever o comportamento de um indivíduo, mas é possível prever o comportamento de uma multidão, pois os indivíduos variam, mas as porcentagens permanecem as mesmas”.

Isso revela um pouco do poder que áreas como a Estatística apresentam, ao mesmo tempo que permitem que possamos aprender a ser um pouco mais de humildes em relação ao nosso comportamento individual, pois embora estejamos vivendo em uma sociedade que valoriza cada vez mais o papel do indivíduo, nós subestimamos muitas vezes a influência que o coletivo detém de modo muitas vezes inconsciente na determinação do nosso próprio comportamento.

E isso é algo especialmente válido para o público jovem, que é um público que está sempre disposto a tentar e experimentar novidades, além de estar constantemente buscando novos elementos que eles possam assimilar na criação de sua própria identidade, o famoso “ser diferente junto com os outros iguais a você”.

O Funk e a Redundância

Por fim, como prometido, gostaria de tentar explicar porque não gosto de Funk. E o jeito mais fácil de explicar isso é através de um conceito da área da teoria da comunicação conhecido como Redundância, que basicamente leva em conta quantas vezes uma informação é repetida em uma determinada mensagem

Como qualquer pessoa que já brincou de “telefone sem fio” sabe, nem sempre uma mesagem enviada de um ponto consegue chegar e ser compreendida pela pessoa em seu destino. Da mesma forma, quando uma determinada mensagem é enviada em massa e de forma aberta pelos meios midiáticos, quanto mais complexa é aquela mensagem, menor será a quantidade de pessoas que conseguirá captar e entende-la.

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O maior exemplo disso é a música clássica, cujos detalhes e complexidade é tão grande que mesmo aquelas pessoas que estudaram música durante anos conseguem captar apenas uma parte de todos os traços e sutilezas de sua melodia.

Isso não era algo tão perceptível na década de 60 e principalmente na década de 70, quando o rock psicodélico de bandas como Pynk Floyd aumentou ainda mais a complexidade apresentada pelas músicas criadas durante a década de 60, mas à medida que a o mercado da música foi se tornando cada vez mais saturado e as técnicas de gravação foram se tornando cada vez mais acessíveis, os produtores musicais foram percebendo que as músicas que conseguiam atrair mais atenção eram asmais simples, pois elas “pegavam” mais rápido na cabeça das pessoas.

Pesquisas já mostraram que a música está cada vez mais alta e repetitiva e o resultado final é que chegamos nos dias de hoje a uma música como “É o Pet”, criada pelo Dj Mortadela em homenagem ao ex-jogador do Flamengo Petkovic, que repete cerca de 273 vezes o refrão “É o pet”. Isso é uma aplicação direta do conceito de redundância, pois se uma pessoa não conseguir captar a informação da primeira vez, ela terá outras 272 oportunidades para faze-lo.

E, apenas pra deixar claro, eu acho que Funk é cultura, afinal se trata de uma autêntica forma de expressão artística de um grupo, mas é um tipo de cultura que eu me dou ao direito de não gostar, pois sempre me deixa com dor de cabeça.

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