Quer saber o que um político acha? Pergunta pra sua mãe

Vivemos uma época de forte turbulência política em que, induzidos pela atual histeria das redes sociais, a depressão econômica e as ações que o Governo vem tomando como resposta à atual crise política, nos encaminhamos para um processo cada vez mais acentuado de polarização política. Como resultado desse cenário de alta turbulência e volatilidade, o debate político passou a ser visto como um jogo de marcar posições em um tabuleiro, onde as pessoas se vêem socialmente estimuladas a definir sua posição em um dos extremos do espectro político, seja da direita ou da esquerda.

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Pra piorar, o posicionamento feito pelas pessoas nas redes sociais muitas vezes acaba sendo mais orientado por aquilo que as pessoas rejeitam do que com o que elas concordam, reduzindo a possibilidade do surgimento de consensos, alimentando ainda mais o sentimento de polarização e incentivando essa interação política conduzida pelos extremos do espectro político.

Mas se o debate político tem se mantido tão polarizado nesses últimos anos, como foi que o Brasil elegeu recentemente o Congresso mais conservador da sua história? Incluindo ai a presença de um maior número de líderes religiosos e de representante de forças policiais?!

Diálogo de extremos

Bom, a primeira explicação possível é bastante óbvia: Diferente do que poderiam acreditar os estrangeiros, que nos vêem como um povo de costumes liberais ao assistirem maravilhados nossos destaques das escolas sambando semi-nuas e brilhando com glitter durante o Carnaval, o Brasileiro é na verdade um povo bastante conservador e religioso, principalmente quando falamos no campo da política.

E quando eu digo conservador, não estou me referindo exatatamente à escola política conservadora, mas, até como resultado do seu baixo nível de educação (formal, mas principalmente política), que o brasileiro médio normalmente analisa assuntos relacionados à Política não de uma forma estrutural, na qual as mudar as regras do jogo podem alterar seu resultado, mas sob um critério de moralidade, tratando o cenário político como um desdobramento do seu próprio círculo famíliar, além de análogo no respeito hierárquico esperado dele.

Já a segunda explicação é que, embora haja aparentemente um forte sentimento de polarização no debate público, o que implica em uma expansão do número de pessoas posicionadas nos dois extremos do espectro político, o resultado do sistema eleitoral como um todo continua sendo determinado pelo comportamento do eleitor médio. Pois, embora o debate público seja geralmente conduzido por pessoas que já tem uma opinião formada, a maior parte das pessoas em qualquer assunto não tem opinião ou é indiferente ao problema.

Se pensarmos que a opinião das pessoas sobre um determinado assunto, como redução da maioridade penal por exemplo, tenha a distribuição de uma curva normal, a maior parte das pessoas estaria situada em alguma ponto próximo da opinião média e, consequentemente, distante dos dois extremos do espectro político, o que incluiria pessoas com uma opinião mais polarizada como “Bandido Bom é Bandido Morto”.

bell_curve

É possível teorizar por outro lado, que embora o percentual de pessoas nos pontos de opinião extrema seja menor, a disposição das pessoas em comentar e se posicionar em um determinado assunto seja diretamente proporcional à sua distância da opinião média. Ou seja, quanto mais extrema é a opinião de uma pessoa, maior é a necessidade que ela sente de reafirmar seu posicionamentos para os demais, o que certamente explica muito das opinões e comportamento que vemos no Facebook e outras redes sociais atualmente…

Teorema do Eleitor Médio

Importante destacar, esses conceitos que estou utilizando não são uma invenção minha, mas fazem parte do chamado “Teorema do Eleitor Médio” ou “Teorema do Eleitor Mediano”, sendo um dos principais conceitos teóricos utilizados atualmente na estruturação matemática de modelos empíricos de Ciência Política ou da área da Economia Política.

Esse conceito teórico simples explica, por exemplo, porque o Lula somente conseguiu ser eleito em 2002 após adotar um tom mais moderado (o chamado de “Lulinha Paz e Amor”) e ao assumir uma série de compromissos de manter os fundamentos econômicos na chamada “Carta aos Brasileiros”. Pois foi apenas quando ele se aproximou mais do centro do espectro político foi que ele conseguiu os chamados “50% mais um” necessários para a eleição do cargo de Presidente.

E, embora o critério de maioria absoluta dos votos seja válido apenas para cargos do executivo, o conceito de eleitor médio também é igualmente válido para cargos no legislativo. Afinal, se o eleitor médio é o ponto que concentra o maior número de eleitores, ele também concentra a maior probabilidade de eleição para cargos no legislativo, os quais tem um critério de voto proporcional.

Essa regra, por sua vez, leva a uma espécie de efeito em duplo sentido: pois ela determina tanto que os político eleitos nesse sistema sejam aqueles que não se afastem tanto da opinião do eleitor médio, quanto que a opinião e as ações que esses políticos venham ter sobre qualquer assunto seja sempre de certa forma sempre pautada e/ou censurada pela opinião do eleitor médio.

Teoricamente, isso é positivo por um lado, pois trás uma maior estabilidade ao sistema ao vetar parcialmente a entrada de idéias muito radicais, mas, por outro lado, acaba censurando, ou ao menos atrasando, a tomada de decisões a favor de uma determinada minoria, que é o efeito que chamamos de “ditadura da maioria”.

Existem exceções à esse conceito de estabilidade política e de censura de idéias radicais prenunciada pelo teorema do eleitor médio? Certamente e consigo pensar em dois casos principais: 1) Países com democracia recém instalada, como o Egito que teve uma eleição majoritária da Irmandade Muçulmana, 2) Países que passaram por crônicas crises econômicas, como foi o caso da Alemanha de 1930, cujo processo de hiperinflação levou à escalada do Nazismo e o recente caso da Grécia, que levou à ascensão do Partido de Esquerda Syriza (e que não é lá TÂO radical assim).

Mamãe Querida

E qual seria o melhor exemplo para ilustrar o conceito de eleitor médio, aquele que se situa no meio do espectro político e que geralmente decide as eleições?

Simples, a sua mãe.

Calma,calma… Por favor, não é minha intenção ofender a família de ninguém aqui, mas mães geralmente são ótimas fontes de insight político sobre o atual senso comum de qualquer qualquer debate público. Primeiro, porque elas refletem a opinião de uma camada mais velha da população, que consequentemente evita decisões mais radicais e se situa mais próximo do centro da média. Segundo, porque mulheres são sempre uma parte significativa dos votos indecisos nas pesquisas eleitorais, pois geralmente decidem seu voto apenas no final do processo eleitoral, fazendo parte do grupo chamado nos Estados Unidos de “Swing Voter”.

Por fim, você não espera que alguém como você, que está lendo um post sobre o “Teorema do Eleitor Médio”, vá refletir o senso comum de toda a população, não é mesmo?! Não, não, acredite… sua mãe sabe mais do que você nesse ponto.

E mesmo que eu esteja errado no seu caso e por acaso sua mãe seja uma hippie esquerdona ou uma doutora em ciência política, não tem probllema. Pois, eu não preciso estar certo em todos os casos, mas apenas estar certo NA MÉDIA, para que o teorema tenha validade e possa ser aplicado.

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