A Muralha Econômica

“A Curiosa Tarefa da Economia é demonstrar aos homens o quão pouco eles sabem, sobre o que eles imaginam que podem criar” – F. A. Hayek, “A Arrogância Fatal”

Quando tinha uns 15 anos, a Globo passou uma mini-série chamada “A Muralha”. Essa atração, que provavelmente foi uma das produções dramaturgicas nacionais mais interessantes que eu já assisti, era protagonizada por três mulheres que precisavam atravessar a Serra do Mar para chegar à São Paulo, que, dentro do enredo no período colonial da época dos bandeirantes no qual a série se passava, não era muito mais do que uma pequena vila colonial, como aquelas pequenas cidades retratadas nos filmes do velho Oeste.

No caso a “Muralha” era a própria Serra do Mar, a maior cadeia de montanhas do Brasil e que servia como uma metáfora para o grande obstáculo que as protagonistas teriam que ultrapassar para alcançar os seus sonhos.

Bom… na verdade as personagens se esforçavam muito pra atravessar a Serra e chegar em um lugar que era pior do que onde elas estavam antes (Dom Jerônimo que o diga!). O que, de certa forma, é uma metáfora feminista bem interessante de como a vida da mulher era difícil naquela época (e em muitos casos, ainda é até hoje).

Mas o meu ponto é que, da mesma forma que aquelas mulheres encontraram uma grande barreira nos seus caminhos, as pessoas hoje em dia também encontram uma grande barreira para a realização de suas empreitadas, sejam elas políticas, artísticas ou empresariais.

Essa “barreira” se chama Economia.

Embora esse seja um tópico sempre em discussão na mídia, é um assunto que, na maioria das vezes, as pessoas tem pouca afinidade, paciência ou mesmo interesse em aprender, mas que é fundamental para a realização de qualquer atividade ou empreitada.

E eu não estou falando apenas de “empreendedores”, pessoas interessadas em começar um negócio ou abrir uma empresa, mas qualquer pessoa interessada em realizar qualquer atividade que envolva circulação de dinheiro… o que, nos dias de hoje, inclui praticamente qualquer coisa.

Isso porque a Economia, pela definição mais amplamente usada (ou seja, a dos manuais do Mankiw) é o “estudo de como a sociedade se organiza para decidir a dinâmica de alocação de recursos escassos“.

Longe de ser acidental, o negrito em “recursos escassos” é uma forma de enfatizar uma lição importante: o fato de que, seja lá que tipo de atividade ou projeto você queira realizar, você provavelmente não terá à mão todos os recursos que você precisa para atingi-lo como você o idealizou.

E eu não estou me referindo apenas a dinheiro, mas também a tempo, recursos físicos ou intelectuais. Ainda que dinheiro, exatamente por representar uma forma cristalizada de poder econômico, consiga na maior parte das vezes lhe dar acesso a esses elementos de uma forma ou outra.

O principal ponto é que, seja la qual for tipo de atividade você que você queira fazer, metade do papel do economista acaba sendo o de bancar o chato, lembrando constantemente a necessidade de ter em mente um determinado limite ou orçamento, o qual determina o quanto é possível fazer dada aquela quantidade limitada de recursos que você tem à sua disposição.

Talvez o maior exemplo disso seja o próprio homem: enquanto ele é potencialmente infinito em seu potencial de realização e em suas idéias, o que ele consegue efetivamente realizar é definido basicamente pelo modo como ele organiza o seu recurso mais escasso, que é o seu breve tempo de vida, na realização de seus objetivos.

Essa discussão, embora possa parecer a princípio óbvia, é frequentemente deixada de lado quando vemos como diversos assuntos são abordados diariamente, sendo que talvez o melhor exemplo disso sejam Políticas Públicas.

Isso porque a discussão política normalmente acaba enfatizando uma questão de direitos ou méritos acima de uma discussão sobre eficiência. Ou seja, uma discussão de “O que é melhor” e “O que é correto” acima de “Como é melhor” e “Como chegarmos ao que é correto”

Para que eu não fique apenas na abstração aqui, eu vou dar um exemplo mais concreto (ou no caso, toneladas e toneladas de concreto): Recentemente eu assisti a um Fórum Público voltado a discutir o futuro do Minhocão, como é carinhosamente chamado o Elevado Costa e Silva. Basicamente um viaduto que corta o centro da cidade de São Paulo

Atualmente considerado como um desvario realizado durante o Regime Militar e previsto para ser desativado pelo Plano Diretor de São Paulo, o viaduto é visto hoje como uma aberração arquitetônica, pois foi construido muito próximo dos prédios em volta e acabou tapando a visão e o acesso á luz na sua parte inferior, na rua Amaral Gurgel. Ainda assim, existem grupos interessados na revitalização e resignificação da construção através de um projeto baseado no Parque High Line de Nova Yorque e que foi carinhosamente chamado de Parque Minhocão.

Apesar dos esforços do seu organizador, o vereador Ricardo Young (PPS), o evento acabou se polarizando mais entre quem estava interessado em derrubar o minhocão e quem estava interessado em criar o Parque.

Um dos dados que foram levantados durante o evento foi que o custo estimado da derrubada do minhocão seriam próximos de 130 milhões de reais e que haveriam grandes dificuldades técnicas para derrubar e retirar tanto concreto e as vigas de ferro. Ainda assim, um dos urbanistas favoráveis à derrubada do minhocão comentou que dinheiro não era problema e que haviam técnicas disponíveis para a retirada do material.

Naquele momento meu lado economista gritou (mentalmente, é claro), pois embora eu concorde que a questão econômico-financeira talvez seja secundária nessa questão urbanística, não seria um ponto importante tentar utilizar o dinheiro público racionalmente?

Isso porque, como citei anteriormente, se metade da atuação de um economista é bancar o chato e lembrar que sempre existe uma restrição orçamentária a ser aplicada em qualquer projeto, a outra metade se trata de explorar diferentes estruturas organizacionais na procura daquela que seja a mais eficiente, gerando o melhor resultado ao menor custo possível.

No exemplo do minhocão por exemplo, não seria possível derrubar não todo o viaduto, mas apenas um pedaço dele e aproveitando parte da sua estrutura?! Isso levaria à uma redução dos custos do conceito de uma derrubada total e poderia levar à criação de um parque com características únicas em todo o mundo.

Claro, essa é uma discussão ampla e que ainda promete vários capítulos de uma longa novela, mas a lição que eu quero deixar aqui é que, da mesma forma que dizem que oportunidade é um dos símbolos presentes no ideograma chinês para crise (e que eu descobri que é mentira…droga), as limitações orçamentárias são formas importantes não atuam apenas de forma negativa, mas podem ser vistas como janelas de oportunidade para aplicação de criatividade e desenvolvimento de novos modelos e conceitos.

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