Qual a diferença entre a direita e a esquerda?

Recentemente a convite de uma amiga, fiz um bate-papo em um cursinho sobre os protestos que começaram em junho no Brasil. Apresentado como “especialista” (o que apenas quer dizer que passo muito tempo na internet) meu objetivo foi expor alguns pontos que poderiam ajuda-los na confecção de uma redação… afinal, acho que ninguém duvida que isso vai cair como tema de redação em algum lugar, certo? Terminada a exposição e abrindo para indagações uma das perguntas foi: “Qual a diferença entre direita e esquerda?”. Como essa parece ser uma dúvida frequente entre os jovens, eu resolvi expor minha resposta aqui também.

Vive la France!

Historicamente essa diferenciação entre a direita e esquerda começou durante a revolução francesa, quando foi criada uma assembleia constituinte com o objetivo de criar uma constituição para o país. Essa constituinte mais tarde foi substituida pela assembleia legislativa, equivalente ao nosso congresso nacional.

A Assembléia acabou vendo a criação de uma divisão natural do espaço: à direita sentavam-se os grandes burgueses, donos de terras, além de representantes do antigo regime, como os antigos nobres, representantes da Igreja e do Exército. Tradicionalmente os nobres e aliados mais estimados pelo Rei se sentavam à sua direita. Já à esquerda se sentavam membros da pequena e média burguesia, como artesãos e donos de pequenos empreendimentos, além de simpatizantes do movimento revolucionário.

Os membros da direita nunca foram a favor dessa divisão geográfica entre direita e esquerda, pois defendiam que os membros da assembleia deveriam representar seus interesses individuais ou de suas bases eleitorais e nao se juntar em partidos ou facções. Durante algum tempo eles até tentaram abolir os partidos, mas eles eventualmente voltaram a existir novamente. Como é possível perceber, tal divisão, além de representar uma divisão intelectual que acabou por polarizar os debates, também denota uma divisão das classes sociais, com os mais ricos e os maiores beneficiários do sistema atual se posicionando à direita e os mais pobres e que buscavam mais benefícios para si e pros outros se situando à esquerda.

Na frança a direita ficou conhecida como “o partido da ordem”, por sempre se opor a medidas radicais que pudessem interferir com a manutenção da ordem. Já a esquerda ficou conhecida como o “partido do movimento” por sempre sugerir fortes intervenções, de modo a auxiliar os mais pobres e desfavorecidos e acelerar a disseminação dos ideais revolucionários.

Mais tarde tanto os membros da direita (girondinos) quanto da esquerda (jacobinos) foram presos, vítimas do ardor popular revolucionário. No final o único grupo que restou foi o meio, que acabou apoiando a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder como Imperador da França. Poderiamos ainda definir essa divisão à partir dos próprios ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Enquanto que a esquerda sempre se identificou mais com a igualdade, buscando maiores ganhos e benefícios para as classes menos favorecidas de modo a diminuir a desigualdade, a direita sempre se identificou mais com a liberdade, tanto no exercício de pensamento quanto de profissão como modos de permitir que a recompensa fossem dadas para aqueles com maior esforço individual e mérito.

O Resto do mundo

O tempo foi passando, mas essa divisão feita apenas pra definir o cenário político francês acabou se extendendo a outros países também, sempre com a mesma configuração: uma direita posta como socialmente responsável e moderada nas intervenções sociais versus uma esquerda mais radical, muito mais ousada nas intervenções e advogando fortemente por mudanças. Por causa disso, normalmente as comoções populares, como as que ocorreram nos protestos do mês de junho, normalmente acabam incitadas ou organizadas pela esquerda, sendo que a direita acaba agindo de forma reativa e abraçando tardiamente e com maior relutância as causas dos movimentos populares.

Historicamente os membros apontados como direita nunca gostaram dessa divisão, pois acreditavam que ela não dava conta de abarcar todas as opiniões individuais. Tanto que é muito difícil ver alguém se admitir como “de direita”. Principalmente no Brasil onde existem uma profusão muito grande de partidos de esquerda, centro-esquerda e moderados, sendo a direita historicamente associada à ditadura ou a ltifundiários e grandes donos de terras.

Durante o século XX, uma época que não à toa o historiador Hobsbwan chamou de “A Era dos Extremos”, a divisão entre direita e esquerda acabou se tornando sinônimo da divisão entre comunistas versus capitalistas, onde eram pregadas duas formas de regime diferentes: uma comunista em que o Estado era dono de todas as propriedades e deveria garantir a igualdade entre as pessoas e uma capitalista que prezava pela propriedade privada e que prezava por maiores ganhos para aqueles que apresentassem melhores resultados. Essa polarização extrema entre Estados Unidos e União Soviética acabou ganhando uma outra expressão na Europa, palco intermediário da Guerra Fria, onde a disputa eram entre sociais-democratas x liberais, sendo os sociais-democratas defensores de um Estado fortemente interventor na economia e garantidor de benefícios sociais, enquanto que os liberais acreditavam que o Estado não deveria intervir, pois isso apenas prejudicaria o crescimento natural da economia e da renda das pessoas, que seriam frutos do mérito e esforço individual.

Brasil-sil-sil…

 Aplicando ao caso brasileiro essa divisão entre direita e esquerda (que também foi sempre foi alvo de muitas críticas) pode ser aplicado com fortes ressalvas na constante disputa eleitoral entre PT x PSDB. Eu digo com ressalvas porque:
  • Na prática o PSDB acaba agregando eleitores tanto da direita mais agressiva, quanto da centro-esquerda. Alguns membros do PSDB são ou tem posicionamentos de centro-esquerda, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
  • O PT de 1989 era uma esquerda muito mais agressiva, mas o partido fez muitas concessões para que Lula pudesse subir ao poder em 2002, se tornando muito semelhante ao PSDB em diversos pontos, inclusive em suas alianças e concessões a partidos como o PMDB.

Obviamente muita gente da própria esquerda discorda que o FHC seja de esquerda, principalmente pelo seu governo ter privatizado diversas empresas estatais, algo associado ao neo-liberalismo. Não devemos porém esquecer que o assistencialismo hoje feito pelo bolsa-família começou em seu governo, além do forte posicionamento do ex-presidente a favor da liberalização das drogas.

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  1. Progressistas vs Conservadores | Muralha Econômica

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