Protestos em São Paulo: a cultura do vapor

Ontem, além de acompanhar os protestos que juntaram mais de 1 milhão de pessoas em todo o Brasil, eu acompanhei a entrevista dos dois participantes do movimento passe livre no Roda Viva da Tv Cultura – link aqui. Eu achei a entrevista muito boa. Os manifestantes foram muito articulados ao responder as perguntas dos participantes e ponderados ao repassar a opinião do restante do movimento.

Ainda assim, como uma espécie de ressaca pós-festa, algumas pessoas estão confusas sobre o que se tornaram e tratam os protestos. Esse provavelmente é o maior problema de uma manifestação tão grande e heterogênea como a que ocorreu ontem: não existe uma liderança e nem uma pauta clara de manifestações que consigam incluir a todos ao mesmo tempo.

Para aqueles que se sentem assim eu pergunto: vocês estariam mais felizes se houvesse uma liderança clara e uma pauta de reivindicações fixas para todo o movimento em nível nacional? Eu não. E explico o porquê.

O século XX foi caracterizado pelo historiador Eric Hobsbwan como “A era dos extremos”, um período “breve” e marcado por movimentos extremistas, com pautas homogêneas e líderes marcantes. Além disso, ele também foi marcado pela popularização da mídia de massa, como a televisão, e a consequente popularização de celebridades – indivíduos pautados como seres excepcionais – que colocaram no mesmo patamar do imaginário popular líderes políticos e celebridades.

Em contraste a isso, o começo do século XXI foi marcado pelo surgimento da Internet: uma mídia marcada por relações horizontais ao invés de verticais, onde não existe um monopólio da informação e todos tem o mesmo direito de manifestação. Com isso as pessoas deixaram de ser apenas consumidoras de informação e passaram a participar de um diálogo comum. Diálogo esse muitas vezes difícil e confuso, mas, ainda assim, um diálogo.

Portanto, a popularização da internet no Brasil, ainda que não seja o único, se tornou o principal fator responsável pelos eventos que ocorreram ontem em todo o país. Isso não apenas porque ele permitiu uma articulação maior dos grupos envolvidos, mas também porque permitiu às pessoas um acesso alternativo e melhor à informação do que aquele proporcionado pelas midias de massa tradicionais como a televisão.

Juntamente com a internet, é importante destacarmos também como um fator importante a expansão da educação superior no Brasil, pois de acordo com odatafolha 77% dos participantes do evento em São Paulo tem ou estavam cursando uma curso superior. Só que essa participação “exclusiva” de pessoas com formação superior pode também ser um reflexo de um protesto que foi coordenado por pessoas com maior renda e, consequentemente, acesso a internet

Porém, o “lado ruim” de tal fenômeno é exatamente essa “aparente” desarticulação e heterogeneidade que existe quando observamos o movimento como um todo. Essa talvez seja a maior dificuldade dos analistas políticos – muitos deles nascidos e criados no mundo pré-queda do muro de berlim – quando analisarem movimentos populares daqui pra frente: olhar pra essa enorme massa heterogênea de pessoas e identificar os diferentes grupos de interesses presentes neles.

No entanto, é importante destacar: mesmo que os protestos tenham sido possibilitados por essa nova mídia que está surgindo na internet e nas redes sociais, eles só foram realizados porque existiu um núcleo duro e organizado, o movimento Passe Livre, que vem organizando protestos e debates sobre a tarifa zero há mais de 8 anos.

Ao mesmo tempo está ocorrendo um fenômeno curioso. Como aquela banda que só você conhecia e que passou a ser pop, alguns membros da esquerda – como estudantes de ciências sociais – muitos os quais já apoiavam o passe livre há mais de 8 anos estão insatisfeitos com a popularização e a “apropriação” do movimento por outras pessoas e grupos, que passaram a incluir outras pautas durante a manifestação. Coisas como “contra os gastos da copa” e “contra a corrupção no Brasil” – como se fosse possível ser a favor da corrupção – o slogan “Não se trata de apenas 0,20R$” seria um exemplo disso.

Infelizmente, a má notícia para essas pessoas é que elas terão que aprender a ser tolerantes com os “recém
convetidos” do movimento. Mais do que isso, terão que aprender a ser tolerantes e a discutir de igual pra igual com essas pessoas que passaram a só agora se interessar por assuntos que, até o momento, eram quase uma exclusividade delas.

O maior desafio desse novo mundo que está surgindo onde todos passaram a ser protagonistas provavelmente será passarmos dos protestos para a proposição, da proposição para o diálogo e, consequemtemente, para o consenso. Até o momento as pessoas concordaram em discordar, mas isso em si já é um grande avanço

Existe uma frase famosa que ouço há muito tempo:”A revolução não será televisionada”. Agora vejo que ela está certa, a revolução não será televisionada, mas será “internetizada”. E quando penso nisso não consigo deixar de pensa na “cultura do vapor” proposta por Alan Moore…

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