Passe Livre: a verdade incoveniente e o pedágio urbano

“A curiosa tarefa da Economia é demonstrar aos homens o pouco que eles sabem sobre o que eles imaginam que podem criar” – F. A. Hayek, “The Fatal Conceit”

Nos últimos dias eu acompanhei e participei do debate sobre os protestos contra o reajuste da tarifa de ônibus, especialmente os fatos ocorridos no dia 13 de julho durante o conflito da tropa de choque com os manifestantes. Durante esse tempo vi muitas pessoas, entre elas economistas, atacarem a principal bandeira do movimento, que é o fim do reajuste da tarifa de ônibus. O reajuste da tarifa pela inflação, dizem eles, é algo simplesmente natural na prestação de qualquer serviço.

Mais do que isso, acusaram a idéia de uma tarifa zero pro transporte público de irreal e ilusória. “Não há como oferecer uma tarifa zero”, diziam eles. Será verdade?

Em primeiro lugar eu só quero esclarecer algo importante: a economia não é uma ciência neutra. Pelo contrário. Especialmente quando se volta pra definição de políticas públicas ela tem um forte peso ideológico, que depende muito de cada autor. Porém, acredito que em uma democracia não cabe aos economistas dizer o que as pessoas devem ou não fazer. Como cientistas, cabe a nós explicar os custos envolvidos em cada decisão e desenvolver o melhor modo de chegar a um determinado objetivo.

Enfim, é possível ter tarifa zero? Sim, mas obviamente tem um custo enorme envolvido que as pessoas precisam estar dispostas a pagar. É como a meia-entrada: pra que alguem use a meia-entrada é preciso que outra pessoa pague uma entrada e meia.

Continue Lendo…

Protestos em São Paulo: a cultura do vapor

Ontem, além de acompanhar os protestos que juntaram mais de 1 milhão de pessoas em todo o Brasil, eu acompanhei a entrevista dos dois participantes do movimento passe livre no Roda Viva da Tv Cultura – link aqui. Eu achei a entrevista muito boa. Os manifestantes foram muito articulados ao responder as perguntas dos participantes e ponderados ao repassar a opinião do restante do movimento.

Ainda assim, como uma espécie de ressaca pós-festa, algumas pessoas estão confusas sobre o que se tornaram e tratam os protestos. Esse provavelmente é o maior problema de uma manifestação tão grande e heterogênea como a que ocorreu ontem: não existe uma liderança e nem uma pauta clara de manifestações que consigam incluir a todos ao mesmo tempo.

Para aqueles que se sentem assim eu pergunto: vocês estariam mais felizes se houvesse uma liderança clara e uma pauta de reivindicações fixas para todo o movimento em nível nacional? Eu não. E explico o porquê.

O século XX foi caracterizado pelo historiador Eric Hobsbwan como “A era dos extremos”, um período “breve” e marcado por movimentos extremistas, com pautas homogêneas e líderes marcantes. Além disso, ele também foi marcado pela popularização da mídia de massa, como a televisão, e a consequente popularização de celebridades – indivíduos pautados como seres excepcionais – que colocaram no mesmo patamar do imaginário popular líderes políticos e celebridades.

Continue Lendo