Passe Livre: as manifestações "espontâneas" e o analfabetismo político

Ok, agora é oficial: parece que uma conjunção astral fez o Brasil entrar em um buraco negro e de repente entramos em um universo paralelo, onde o brasileiro deixou de se importar exclusivamente com o futebol e a copa das confederações e passou a falar apenas sobre política. Isso é algo ótimo certo?!

Sim, certamente. Porém, infelizmente ela expõe ao mesmo tempo uma falha estrutural do país: o analfabetismo político do brasileiro médio. Ou ainda, o despreparo geral dos brasileiros em compreender questões relacionadas à política nacional.

Essa não é uma conclusão difícil de se chegar. Conversando com qualquer pessoa sobre política você verá rapidamente o assunto se resumir à “corrupção dos políticos” com uma frequência quase absoluta… restando a você apenas concordar com um gesto de cabeça, sem saber como avançar o assunto.

É o famoso protesto contra a corrupção, como se alguém protestasse a favor da corrupção. O protesto a favor da paz, como se houvesse alguem contra a paz. Protesto pós-vida, como se alguem, em sã-consciência, preferisse a morte.

Isso certamente explica bem esses movimentos espontâneos que ocorreram após o movimento passar a ter apoio geral da midia e da classe media. O reducionismo relativo dos brasileiros em relação à política fez com que as pessoas começassem a enxergar os protestos como uma forma de extravasar sua frustrações quanto aos assuntos em tona, como “contra os gastos da copa”, “abaixo a corrupção” e até mesmo “playstation 4 mais barato” (Aliás, voce pode ver uma relação das placas mais engraçadas aqui).

Eu mencionei os brasileiros, mas, na verdade, essa é uma questão bem comum em todos os paises. A perplexidade do povo americano diante dos complicados mecanismos financeiros que levaram à crise de 2008 nos EUA, assim como a incerteza dos europeus diante da crise que envolveu o gingantesco aparelho estatal que se tornou a União Européia, são exemplos claros da dificuldade do cidadão médio de lidar com questões políticas relacionadas ao Estado.

Porém, velhos costumes são difíceis de serem quebrados… e no caso específico do brasileiro o problema é a falta de costume de nunca ler e isso não apenas sobre o assuntos relacionados à política nacional, mas em relação a qualquer outro assunto. E isso não apenas entre as camadas mais pobres, o que é compreensível dada a fraqueza da educação pública, mas também entre as classes mais abastadas da sociedade.

Na minha opinião, o problema é que só conseguimos efetuar uma transição completa da cultura oral para a cultura escrita recentemente, com a propagação da internet.

Eu poderia dar uma explicação alongada, mas prefiro resumir pelas imagens abaixo: elas envolvem os gastos em publicidade do Brasil e dos Estados Unidos por veículo publicitario: como vocês podem ver a diferença entre os gastos publicitarios do primeiro pro segundo lugar variam muito entre os dois paises, sendo que, até pouco tempo, os gastos de publicidade com mídia impressa só perdiam para as propagandas do canal aberto.

Essa relação aponta de quais tipos de fontes midiáticas o brasileiro aprendeu a absorver notícias, além de apontar aos modos como ele aprendeu a lidar com a informação. Diferente dos EUA por exemplo, o brasileiro sempre dependeu mais da Tv para receber as notícias e absorver informação, e como a informação midiática da Tv é um tipo de mídia muito rápido e dinâmico, o máximo de informação que um indivíduo médio tinha sobre política se restringia a dois ou três minutos de uma reportagem na TV, sem buscar aprofundar o assunto através de uma linguagem escrita.

No entanto, é preciso reconhecer o mérito da televisão, pois comparando séries de Tv atuais como “Game of Thrones” e “Mad Men”, séries maduras com tramas bastante complexas, com seriados mais antigos como “I love lucy” ou “Familia Buscapé”, mostram que essa midia evoluiu muito mais rapidamente do que a mídia escrita, encontrando meios de conseguir passar cada vez mais e mais informação em um intervalo muito curto de tempo.

Por isso, eu digo que essa defasagem entre a cultura oral e a escrita no Brasil só foi superado após a propagação da internet. Meio esse que não se limita a linguagem oral ou escrita, mas que conseguiu criar uma cultura completamente nova, sendo um meio que divulga informações em uma mistura da linguagem oral, escrita, mas também fortemente visual.

Quando termino esse texto já recebi a notícia de que a tarifa baixou. Espero, de forma bastante otimista, que isso marque um novo momento da política brasileira, onde teremos movimentos maduros que saibam reivindicar com responsabilidade sobre pautas específicas. Sem ideologias, mas com forte envolvimento político e responsabilidade.

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